Vemos constantemente em fóruns de discussão sobre aquarismo em geral e não só sobre ciclídeos pessoas postando várias dúvidas a respeito dos parâmetros ideais para seus aquários, querendo saber quais são realmente os valores ideais e aquaristas preocupados com as variações que ocorrem ocasionalmente ou regularmente em seus aquários, e que fazem os parâmetros de seus aquários divergirem de várias fontes de informação sobre os tais "parâmetros ideais" para os diversos tipos de aquários. Mas será que estas variações também não ocorrem nos próprios habitats dos peixes? Claro que sim! Os rios, lagos, mares e demais habitats não são como nossos aquários, que são ambientes fechados e relativamente sem interferência externa, locais onde podemos monitorar e controlar de alguma forma estas variações e praticamente evitar algumas delas totalmente, locais estes que não estão sujeitos como na natureza aos fatores abióticos (vento, chuva, o sol, erosão jogando minerais diferentes na água, poluição...). Em locais como grandes rios, grandes lagos, oceanos, algumas dessas variações ocorrem lentamente, devido ao grande volume de água existente, mas em alguns casos essas variações também ocorrem bruscamente e de forma intensa (por exemplo chuvas fortes após uma estação de seca), e algumas dessas variações é que de certa forma "disparam" alguns fenômenos, como por exemplo uma mudança na temperatura da água causada pelo degelo nas montanhas "avisa" aos peixes que é chegada a hora da reprodução.
No caso dos Grandes Lagos do Vale do Rift, por causa de suas propriedades geográficas, há vários locais com diferentes parâmetros de água. Como descrito no artigo sobre habitats do Lago Malawi, temos peixes vindos de várias regiões do lago, vivendo em locais os mais diferentes - em alguns não há sequer vegetação, em alguns a profundidade é grande (portanto com menor penetração de luz solar, e consequentemente menor temperatura) e assim por diante. Os parâmetros para essas espécies podem ser considerados iguais? Não!... mas e quando resolvemos manter espécies de locais com essas variações tão grandes entre si? Esse é mais um dos motivos para que não se montem os chamados "aquários-salada", e que as características dos seus peixes devem ser pesquisadas antes de montar seu aquário para que você possa saber o que realmente será preciso fazer para adaptar o que você tem em mãos para se adequar aos peixes que deseja criar, e não são os seus peixes que devem se adequar a isso, e dessa forma você poderá manter espécies sempre compatíveis e saudáveis.
Quando se especifica algum valor para algum determinado parâmetro para uma determinada espécie, é preciso levar em consideração estas variações que ocorrem eventualmente, e não se fixar exatamente naquele valor específico. Fixando um valor e estabelecendo aquele valor como "padrão" ou ideal, leva a muitos aquaristas a tentar igualar os valores de seus aquários a estes, o que muitas vezes acaba se tornando uma tarefa complicada de se fazer, atingir aquela marca exata de por exemplo um pH exatamente igual a 8,4 (exemplo!) e constante assim o tempo todo. Muitas vezes os aquaristas menos experientes se perdem nesse mundo de informações conflitantes, e acabam causando desconforto em seus peixes tentando fazer essas pequenas adaptações que às vezes não farão tanto bem de forma significativa quanto o mal que causarão pela flutuação constante desses valores em suas tentativas de alcançar aquela marca "ideal" que ele leu no site A ou B como sendo a "correta" para aquela espécie. Uma pequena variação temporária nos parâmetros de seu aquário não é uma catástrofe, é isso que os aquaristas iniciantes precisam também ter em mente. Os valores citados devem ser levados em conta como valores de referência, e que podem variar eventualmente.
Evidentemente que há certas coisas que são constantes e são verdadeiras "regras" mesmo, como por exemplo os grandes lagos do Vale do Rift têm a água alcalina e dura, águas amazônicas são normalmente ácidas e moles, e se alguma variação em ambos não é de todo um mal, certos limites devem ser respeitados, e não dá para por exemplo querer ter peixes de um ambiente de água dura tendo uma água com dureza baixa em seu aquário. Alguns aquaristas ainda teimam em desrespeitar esses pequenos limites, mas ao mesmo tempo se preocupam demais com um ou dois graus a mais ou a menos em suas temperaturas, por exemplo.
A tabela a seguir foi compilada a partir de dados do artigo "The chemical composition of African lake waters", de Talling & Talling. Eles classificaram valores de referência de 67 lagos, classificando os lagos em 3 tipos diferentes de acordo com suas concentrações iônicas e condutividade elétrica. A condutividade, medida em microsiemens (µS) ou milionésimos de siemens (anteriormente chamados de micromhos [µmho]) é um índice sensível da concentração iônica total. De uma maneira imprecisa, podemos afirmar que quanto maior a condutividade, mais íons presentes, e mais "dura" é a água.
Os lagos da Classe I (na terminologia proposta pelos Talling) têm baixa concentração total de íons [alcalinidade normalmente abaixo de 6 miliequivalentes por litro (meq/L); este termo já caiu em desuso], e condutividade menor que 600 µS (µmho). A água destes lagos vem da correnteza direta da superfície de rios com pouco sal. Esta classe inclui os lagos Malawi, Malombe, Victoria, Tana e George, entre outros.
Os lagos da Classe II têm concentrações totais de íons maiores (alcalinidade de cerca de 6 a 60 meq/L), e condutividade entre 600 e 6000 µS. As concentrações mais altas se originam de "acumulação e evaporação em bacias fechadas ou por influxo ricos em solutos e particularmente carbonato de sódio e bicarbonato" (p. 435), especialmente drenagem de lavas alcalinas. Os lagos Tanganyika, Kivu, Edward, Albert, Turkana (Rudolf), Rukwa e outros fazem parte desta classe.
A Classe III inclui os lagos salinos, com alcalinidade normalmente superior a 60 meq/L e condutividade de 6000 - 160.000 µS. Esta classe cujos lagos, que frequentemente possuem depósitos de minerais sólidos, inclui os lagos Nakuru, Magadi, Natron, Manyara, Eyasi, Katwe, e outros.
Não fazem parte desta tabela leituras de profundidades abaixo de 300 e 600 metros, níveis onde não há oxigênio dissolvido, portanto sem condições de haver alguma espécie. Um valor citado pelos Talling mas que é considerado duvidoso, está incluído entre colchetes. Notem que os valores da maioria dos constituintes da água do lago Malawi são intermediários entre os dos outros lagos, e normalmente são mais próximos aos do lago Victoria.
Observação: os valores originais do trabalho dos Talling, aparecem em fonte normal. Joe Gargas, diretor de pesquisas e desenvolvimento da Wardley Corporation e um expert em química e tratamento da água recalculou os valores, postados em negrito. Estes valores representam conversões dos dados apresentados pelos Talling para, em alguns casos, unidades de medida mais modernas de uso mais global e mais familiar aos aquaristas.
Constituinte Químico |
Lago Vitoria |
Lago Malawi |
Lago Tanganika |
|
Condutividade elétrica |
91 - 145 |
210 - 220 |
606 - 620 |
|
Sólidos totais (mg/L) |
76 - 118 |
— |
460 |
Sólidos totais (mg/L), média |
58.24–118.0 |
134.4–140.0 |
387.84–460.0 |
|
Soma de cátions (meq/L) |
1.04 - 1.21 |
2.45 |
7.30 - 7.46 |
|
Soma de ânions |
1.08 - 1.77 |
2.5 - 2.59 |
7.25 - 7.71 |
Dureza total, como carbonato de cálcio CaCO3 (mg/L) |
19.12-70.83 |
60.58-85.60 |
186.33-224.0 |
Cálcio total, como carbonato de cálcio CaCO3 (mg/L) |
12.50-37.50 |
41.0-49.0 |
23.0-44.0 |
Magnésio total, como carbonato de cálcio CaCO3 (mg/L) |
6.625-33.33 |
19.58-36.60 |
163.33-180.0 |
|
pH |
8.0 - 8.8 |
8.5 - 8.6 |
8.66 - 9.06 * |
|
Na (sódio) |
10.4 - 13.5 |
21.0 |
57 - 63.6 |
|
K (potássio) |
3.7 - 4.2 |
6.4 |
18.0 - 35.5 |
|
Ca (cálcio) |
5 - 15 |
16.4 - 19.8 |
9.2 - 17.6 |
|
Mg (magnésio) |
1.59 - 8 |
4.7 - 8.8 |
39.2 - 43.3 |
Alcalinidade como carbonato de cálcio CaCO3 (mg/L) |
12.5-76.5 |
118.0-129.0 |
301.0-340.5 |
|
HCO3 + CO3 bicarbonato, carbonato) |
0.25 - 1.53 |
2.36 - 2.58 |
6.02 - 6.81 |
Alcalinidade como |
7.62-46.66 |
71.98-78.69 |
183.61-207.7 |
|
Cl (cloro) |
3.9 - 7.0 |
3.57 - 4.3 |
20.9 - 36.6 |
|
SO4 (sulfato)
(mg/L) |
2.3 |
5.5 |
7.2 - 15.3 |
|
SiO2 (óxido de silício dissolvido) (mg/L) |
3 - 20 |
1.1 - 4 |
0.3 - 6.6 |
|
NO3 - N (nitrato-nitrogênio) (µg/L) |
11 - 29 |
— |
abaixo da detecção limite |
|
PO4 - P (fosfato) (µg/L) |
3 - 13 |
<7 - 30 |
7 |
|
P total (fósforo) |
47 - 67 |
— |
[ 21 (duvidoso) ] |
* Valores de pH para o lago Tanganyika não estavam disponíveis para Talling & Talling (1965). Os valores tabulados aqui foram gentilmente cedidos por Eric Coenen do Lake Tanganyika Fisheries Research, extraídos do Technical Document TD/46 escrito por Plisnier et al. (1996) da LTR (Pesquisa para Gerenciamento das Pisciculturas do Lago Tanganyika). Estes valores de pH para o Lago Tanganyika foram medidos em águas pelágicas (perto da superfície e em várias profundidades) a cada 1-2 semanas por um ano usando o mesmo medidor de pH e métodos de amostragem uniformes.
Ciclídeos Online, 2009
OLIVER, M. K. (1997 and after.) The Cichlid Fishes of Lake Malawi, Africa. http://www.malawicichlids.com/mw01011.htm. Acessado em 08/10/2009
TALLING, J.F., e I.B. Talling. 1965. The chemical composition of African lake waters. Internationale Revue der Gesamte Hydrobiologie 50 (3): 421-463. [PDF]