Malawi Bloat
O Malawi Bloat é uma doença assim denominada por ser de ocorrência bastante comum nos ciclídeos africanos, mas na verdade é uma doença bem parecida à conhecida hidropsia, tendo inclusive algumas causas ou fatores que predispõem os peixes a ter esta doença em comum, e os sintomas são bastante semelhantes. Bloat significa "inchaço" em inglês, e este inchaço é resultante do acúmulo de líquidos no organismo do peixe, uma característica comum também da doença conhecida como hidropsia ou ascite.
O Malawi bloat acomete todas as espécies de ciclídeos africanos, mas preferencialmente ciclídeos africanos de hábito alimentar herbívoro, ou onívoros com alta demanda de vegetais em sua dieta. Dentre os gêneros de ciclídeos do lago Malawi que são mais susceptíveis ao aparecimento do bloat podemos destacar: Cynotilapia, Aulonocara, Labidochromis, Nimbochromis, Pseudotropheus, Maylandia e Melanochromis; e no Lago Tanganika os peixes do gênero Tropheus.
Não existe uma causa específica para o surgimento do Malawi Bloat nem um agente patogênico específico. No entanto, 3 fatores têm sido observados como significativos no aparecimento da doença: dieta inadequada, qualidade da água e uso de sal (cloreto de sódio, NaCl), mas todos eles têm em comum outro fator, que é causar o stress nos peixes. O stress baixa a imunidade dos peixes (assim como nos humanos), abrindo a porta para doenças oportunistas, não apenas o Malawi Bloat. Acredita-se que o Malawi Bloat seja uma doença de origem parasitária, uma espécie de infecção oportunista que se instala quando algum destes fatores (ou todos) está presente num aquário, principalmente por causa do stress. É também citado no entanto que a causa do Malawi Bloat seja bacteriana, bactérias dos gêneros Aeromonas e Clostridium. Independentemente disso, essas infecções são causadas por uma combinação dos fatores citados acima. É importante citar também que nem toda doença que cause um inchaço abdominal pode ser caracterizada como Malawi Bloat, como por exemplo os tumores ou constipação, tão comum em bettas (também causada basicamente por alimentação errada) - mas que também se não tratada, pode levar à hidropsia.
Dieta inadequada
Os gêneros citados acima como sendo os mais propensos a ter o Malawi Bloat são primordialmente herbívoros. Peixes herbívoros tem intestinos longos, que requerem um longo período de tempo para a digestão. Quando são alimentados com uma dieta pobre em vegetais e/ou rica em proteínas de origem animal, para a qual seus organismos não estão fisiologicamente e anatomicamente preparados para lidar, faz com que essa alimentação não seja corretamente digerida, e a decomposição desses alimentos não digeridos ou não corretamente eliminados irrita as paredes intestinais, causando stress no peixe, e dando chance aos parasitas de se reproduzirem. Alimentos como bloodworms, rações em sticks, grãos ou flocos que contenham grande quantidade de proteína animal, artêmias, todos são inadequados para alimentar os seus ciclídeos herbívoros.
Qualidade da água
Este fator, como citado no artigo sobre o Ciclo do Nitrogênio, é de vital importância para a saúde não só dos ciclídeos africanos, mas para qualquer outra espécie. Peixes criados em águas com condições ruins (altos níveis de compostos nitrogenados, falta de trocas de água parciais, filtração deficiente) tem uma carga de stress muito maior do que outros, sem contar a própria intoxicação causada pelos compostos nitrogenados por exemplo.
Uso do Sal (NaCl, cloreto de sódio)
O sal comum (cloreto de sódio) tem sido usado em aquários de ciclídeos africanos erroneamente, acreditando-se que ele irá aumentar a dureza da água (o que é feito pelos carbonatos!) e aumentar o pH. Na verdade, ele não faz nenhuma das duas coisas. Aparentemente, casos de Malawi Bloat parecem ser mais comuns em aquários onde o sal é usado. Se a água do seu aquário de ciclídeos africanos necessitar algum tipo de correção em sua dureza ou pH, os compostos apropriados devem ser usados. Como em Química estes compostos também são conhecidos pelo nome de "sal", a confusão pode acontecer aí. Mas são outras substâncias, não o sal comum (usado na cozinha ou mesmo o sal grosso ou sal marinho). O sal também não deve ser usado como tratamento. Este artigo faz uma brilhante dissertação sobre o mito do sal nos aquários de água doce.
Manifestações da doença
As manifestações ocorrem em três níveis:
- Alterações primárias - alterações de comportamento como falta de apetite, apatia e respiração acelerada.
- Alterações secundárias - ventre distendido, alteração na cor e consistência das fezes (apresentam-se esbranquiçadas com aumento da viscosidade)
- Alterações terciárias - distensão acentuada do ventre, escamas eriçadas em maior ou menor grau (o inchaço interno força as escamas para fora, fazendo com que fiquem com esta aparência. É mais comum em casos de hidropsia). Inchaço na perianal, que fica avermelhada. Manchas no corpo, ulcerações e hemorragias indicam sepse, que é um sinal de que a infecção já se espalhou por todo o corpo do peixe. Nesse estágio ocorrem disfunções hepáticas renais e da vesícula gasosa (anteriormente chamada de "bexiga natatória").
Tratamento
O Malawi Bloat é infelizmente uma doença de tratamento difícil, mas há relatos de cura, desde que os sintomas sejam observados no início da doença e o tratamento realizado prontamente. O grande problema é que quando aparecem os primeiros sinais clássicos e visíveis da doença como por exemplo o inchaço, algum dano já ocorreu. O melhor tratamento é a prevenção, na verdade, controlando os fatores citados mais acima no texto.
Por ser uma doença de origem bacteriana, e particularmente de bactérias anaeróbicas na maioria dos casos, um antibiótico específico para este tipo de bactérias é o tratamento mais adequado. Dentre as possibilidades destaca-se o uso do metronidazol (presente em vários produtos comerciais, não nos cabe aqui indicar marcas em particular), numa dosagem de 10mg/L a cada dois dias, com a realização de TPAs de 50% antes de nova aplicação do medicamento. E como recomendado sempre em casos de tratamentos de doenças em aquários, separe o peixe doente num "aquário hospital" para fazer o tratamento (o antibiótico vai certamente danificar sua colônia de bactérias nitrificantes se aplicado no aquário principal), preferencialmente com uma boa aeração e luzes apagadas para redução do stress (as luzes não têm qualquer efeito na ação do medicamento!). O Metronidazol funciona melhor em temperaturas mais altas, e nesse caso é imprescindível aumentar a aeração porque o oxigênio dissolvido é reduzido em temperaturas mais elevadas. A elevação da temperatura é benéfica também porque aumenta o metabolismo do peixe, elevando sua resposta imunológica e reduzindo o tempo necessário para a cura.
© Ciclídeos Online, 2009.
Referências
MABILIA, Rodrigo G. Enfermidades dos Peixes Ornamentais - Malawi Bloat. Site Aquaforum
MONKS, Nealy. Dropsy (edema), Malawi Bloat and Similar Syndromes. Fishchannel.com.
ELIESON, Mark. Malawi Bloat. Cichlid Forum.




