Ciclídeos - o lado de dentro
Os fãs de ciclídeos conhecem bem seus peixes não só pela aparência externa (não conhece ainda? Veja este artigo) mas também conhecem bem o seu comportamento. Também conseguimos identificar tudo "o que entra" e "o que sai" deles. Sabemos que eles respiram por brânquias. Mas quantas vezes paramos pra pensar sobre o que acontece "do lado de dentro" dos nossos peixes? É difícil descobrir, já que poucos artigos e livros falam sobre esse tema.
O sistema digestivo
Se existe alguma coisa que possa ser remotamente comestível num ambiente de águas tropicais, os ciclídeos provavelmente se desenvolveram de alguma forma para comê-la. Eles adaptaram por exemplo as suas dentições para lidar com comidas específicas, como é o caso dos ciclídeos que se alimentam dos "aufwuchs".
O resto do trato digestivo dos ciclídeos também varia, dependendo exatamente desta dieta à qual o peixe se adaptou, e também à sua idade - já que a dieta frequentemente muda com a idade. Alevinos e juvenis de peixes herbívoros são frequentemente onívoros já que eles não conseguem obter toda a proteína de que precisam apenas se alimentando dos vegetais. Este é o motivo pelo qual um pequeno uaru irá comer praticamente de tudo, inclusive pedaços de outros uarus. Mesmo depois de crescer ainda leva tempo para que os peixes que comem uma grande refeição (esporádica) quando adultos como os Crenichla possam fazer a transição para este tipo de dieta.
O trato digestivo dos ciclídeos consiste basicamente em um estômago (cuja função é principalmente armazenar a comida ingerida, embora alguma digestão já ocorra nele) seguido de um intestino (para os processos digestivos remanescentes), terminando no ânus.
Os piscívoros comedores de presas grandes normalmente tem um estômago adaptado por causa do grande volume das suas refeições ocasionais, que são armazenadas e enviadas através do intestino durante horas ou dias. O mesmo pode se aplicar com peixes que têm refeições periódicas, por exemplo o piscívoro crepuscular Cyphotilapia frontosa, que se alimenta de peixes pequenos na aurora e crepúsculo e os digere no dia ou noite subsequentes.
Os ciclídeos que se alimentam de forma contínua, seja de pequenas presas como alevinos e invertebrados, algas ou outro tipo de matéria vegetal tem um estômago menor, pois não precisam de um lugar muito grande para armazenar a comida já que seu intestino é constantemente preenchido.
Digestibilidade
O comprimento do intestino varia conforme a dieta alimentar do peixe. Algumas comidas são mais facilmente digeridas, então um intestino mais curto será suficiente. A matéria vegetal requer um processamento extra para quebrar as paredes celulares (a celulose) e extrair a "parte boa" da comida. Como resultado, peixes herbívoros normalmente têm um intestino grande e enrolado. Consequentemente, os onívoros tem um intestino de comprimento menor.
A digestão involve a quebra da comida por ácidos e enzimas, que são ajustadas ao que o peixe deve comer, e o tipo de "combustível" que este peixe requer (sejam proteínas, carboidratos, vitaminas) é absorvido através das paredes intestinais. A passagem da comida pelo intestino é ajudada pela contração muscular - o peristaltismo - que é beneficiado pela ingestão de fibras tal qual ocorre no nosso próprio organismo.
Tudo isso funciona muito bem quando o peixe come a comida que a natureza assim o determinou, ou algo similar, pelo menos na maioria dos casos. Embora não seja comum ver um piscívoro se alimentando de algas, muitos ciclídeos são oportunistas e estão prontos para consumir qualquer coisa que seja comestível (é por isto também que seus ciclídeos herbívoros aceitam de bom grado rações com proteína animal - cuidado com o Bloat!).
O intestino absorve apenas os nutrientes que são requeridos e o excesso é eliminado. Entupir um peixe de comida para fazê-lo crescer mais rápido não irá funcionar como esperado. O que irá acontecer é que a água irá se poluir mais rapidamente com compostos nitrogenados que serão excretados em maior quantidade, levando a um aumento dos níveis de amônia, nitritos e nitratos, e uma possível intoxicação e morte.
Armadilhas alimentares
As coisas podem dar muito errado se um peixe é alimentado com a dieta errada por um longo tempo. A maioria dos ciclídeos onívoros e exclusivamente herbívoros estão prontos para comer qualquer coisa a qualquer tempo, e continuamente, se possível. O instinto lhes programou assim, e este instinto lhes "diz" que precisam se alimentar sempre que encontrarem comida, já que não saberão quando encontrarão comida novamente. Claro que num ambiente de aquários isto não ocorre, e a comida está sempre disponível caso o aquarista queira fornecê-la. Já ouviu falar do ditado popular "o peixe morre pela boca"? Pense nisso e reflita qual é o significado deste ditado em termos práticos em seu aquário.
Peixes acostumados a comer uma baixa quantidade de fibras e que são alimentados com uma grande quantidade de comida rica em fibras e que não estimulam o peristaltismo podem sofrer de bloqueios intestinais e constipação, o que pode levar inclusive à irritação das paredes intestinais e consequentemente uma infecção bacteriana oportunista, como no caso do Malawi Bloat.
Os peixes que consomem uma dieta vegetariana ou de pequenos invertebrados fáceis de digerir podem sofrer bloqueios se alimentados com carne, inclusive de peixe, carne esta que não conseguem digerir, pela falta das enzimas e ácidos necessários já que sua dieta natural não contém carne. Uma comparação com os humanos: somos mamíferos e ingerimos leite durante os nossos primeiros meses de vida. Após este período, o leite não nos é mais necessário (somos os únicos mamíferos que continuam ingerindo leite após adultos!), e a enzima lactase, responsável pela digestão do açúcar do leite, a lactose, muitas vezes deixa de ser produzida pelo organismo após a idade adulta, pois sua presença não é mais necessária, e isso acarreta na chamada "intolerância à lactose" dos humanos, que não conseguem mais digerir produtos derivados do leite. Os peixes herbívoros não possuem enzimas para digestão da proteína animal, por isso não conseguem digerir alimentos com alto teor destas proteínas, como a carne. Este alimento não digerido apodrece, irrita as paredes intestinais, causa stress no peixe, abaixa sua imunidade, e isto é a porta de entrada para o desenvolvimento de infecções oportunistas.
A carne dos mamíferos e das aves contém gorduras as quais um peixe consegue absorver e as absorve, mas são gorduras que ele não consegue utilizar. Estas ficam armazenadas em tecidos e órgãos vitais como o fígado. Peixes que se alimentam deste tipo de comida podem se tornar obesos, e da mesma forma como um humano magro pode ter um alto nível de colesterol e parecer saudável, um peixe pode não apresentar sintomas de problemas e sofrer falência de órgãos por causa do acúmulo da gordura. A esterilidade também pode ser uma outra consequência disto.
Os discus e os ciclídeos do Malawi são vítimas em particular de dietas com alta proteína ou erradas. Os estudos de Bleher (2006) de conteúdo estomacal mostram que os Symphysodon na verdade comem alimentos com baixa proteína, como o fazem a maioria dos peixes não-piscívoros do Malawi.
O coração e o sangue
Como nós, os peixes têm um coração para bombear o sangue e artérias e veias para transportá-lo. O sangue funciona como um meio de transporte, levando nutrientes do intestino e oxigênio das brânquias para onde sejam necessários, e carregam dióxido de carbono e amônia para serem excretados pelas brânquias.
O efeito do nitrito no sistema circulatório é bastante conhecido. Ele converte a hemoglobina, o pigmento vermelho que se liga ao oxigênio e o leva aos tecidos, em metahemoglobina, que não realiza esta função. Como resultado, o peixe pode se sufocar mesmo numa água rica em oxigênio se ela também contiver um alto nível de nitritos, causando a morte por intoxicação. A amônia também afeta a absorção de oxigênio, mas por danificar as delicadas lamelas das brânquias.
Quanto mais alta a temperatura, mais o peixe irá requerer oxigênio (seu metabolismo aumenta com a temperatura) mas menos oxigênio dissolvido a água irá conter. Tratar doenças com agentes anti-bacterianos, que matam as bactérias nitrificantes, com o consequente aumento da amônia e nitrito juntamente com o aumento da temperatura para aumentar também o metabolismo e ajudar na recuperação mais rápida do peixe pode ser também uma "faca de dois gumes". O recomendado é sempre fazer os tratamentos em aquários-hospital, com ambientes preparados para tal.
Fígado e rins
O fígado produz a bile para os processos digestivos e também células vermelhas e armazena glicogênio e gorduras - mesmo as nocivas - contidas em carnes de mamíferos e aves.
Os rins tem como função principal a filtragem de substâncias nocivas e também ajudam na osmoregulação, o sistema que ajuda o peixe a manter o balanço correto de sais e água em seu corpo em relação ao meio externo.
Embora pareça que o assunto não tenha sido pesquisado em detalhes, há evidências de que mudanças súbitas na química da água ou a exposição a longo prazo à química errada da água no caso de espécies que preferem água mole ou dura, afetam o sistema de osmoregulação e podem causar falência de órgãos e a morte do peixe. A química da água, assim como a dieta, pode ser crítica para espécies que são específicas de determinados ambientes.
Muitos aquaristas que mantém aquários de água doce tem o costume de adicionar sal comum (NaCl, cloreto de sódio) aos seus aquários de ciclídeos do Malawi, acreditando que isto fará com que a água fique mais dura (não faz!). Os peixes destes aquaristas frequentemente sofrem com o Malawi Bloat, e o problema para quando eles também param de adicionar o sal comum aos seus aquários.
A bexiga natatória ou vesícula gasosa
Este é um órgão interno onde, através de sinais externos, problemas podem ser imediatamente visíveis. A vesícula gasosa (anteriormente chamada de bexiga natatória) é um saco preenchido por gás que permite ao peixe - que é mais pesado que a água - flutuar sem ter que remar como louco para não afundar. Poderiamos ver como seria a vida sem este aparelho de flutuação em ciclídeos como os Teleogramma e Steatocranus, onde a vesícula gasosa é atrofiada, já que uma vesícula inteiramente funcional seria uma desvantagem no seu habitat em particular, onde a parte mais próxima ao substrato é a mais segura.
Alguns peixes tem a vesícula gasosa aberta em um dos lados e ligada ao trato digestivo, podendo fazer com que ela seja preenchida ou esvaziada conforme a necessidade, permitindo ao peixe se mover rapidamente de um nível de água para outro. Em ciclídeos a vesícula gasosa é fechada e seu conteúdo gasoso pode ser regulado apenas através da lenta entrada e saída de gases através do sistema circulatório. Isto quer dizer que se um ciclídeo sobe rapidamente de águas profundas para águas mais rasas, a pressão externa reduzida faz com que o gás preso na vesícula cause um inchaço, causando normalmente um dano fatal a outros órgãos.
Isto pode ser observado em ciclídeos do vale do Rift apanhados em águas profundas, que aparecem com metade de suas entranhas saindo pela boca e ânus, e por causa disto quando são capturados para serem colocados em aquários, devem ser trazidos à tona lentamente para que possam se adaptar, de modo semelhante aos mergulhadores.
A vesícula gasosa é também às vezes afetada por infecções, causando a perda da flutuação ou de seu controle, e em ciclídeos estes problemas são mais observados após brigas, onde a vesícula é danificada.
As gônadas
As fêmeas dos ciclídeos possuem 2 ovários e os machos 2 testículos internos. Alguns haps incubadores bucais possuem um dos ovários atrofiados e o outro com funcionamento normal, talvez por causa do tamanho dos ovos e pela capacidade de armazenamento deles na boca.
Um problema comum com ciclídeos de tamanho médio e grande é que entre juvenis da mesma idade o acasalamento ocorre, mas sem a formação de alevinos, e isto talvez indique que os machos se tornam sexualmente maduros (férteis) depois das fêmeas, embora o acasalamento ocorra normalmente.
Isto não é supreendente com relação a peixes que precisam brigar por territórios e os dominar para que a reprodução tenha sucesso, especialmente quando há competição. Jovens machos não tem muita chance de se reproduzir na natureza porque não ganham as competições por territórios.
Este cenário afeta tanto incubadores de substrato quanto incubadores bucais (principalmente os Tropheus), mas não os anões como os Apistogramma, onde um tempo de vida curto não lhes dá prazo para atrasar a produção de proles.
© Ciclídeos Online, 2009
Referências
Bailey, Mary. The inside story. Practical Fishkeeping Magazine, Abril 2008.
Bleher, H. (2006). Bleher's Discus, vol. 1. Aquapress, Pavia, Itália, 671 pp.




