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O ciclo do Nitrogênio

Afinal, o que isso tem a ver com meu aquário?

Todo hobby, por mais baseado na prática que seja, possui suas regras e teorias. O aquarismo não foge a isto e possui uma grande quantidade de regras baseadas em leis químicas e biológicas que determinam diretamente como proceder na manutenção de um aquário, e ignorar estas diretrizes é um belo caminho para o fracasso de seu aquário.

Dentre os principais fatores a serem monitorados e compreendidos estão: temperatura, teor de oxigênio dissolvido, pH, alcalinidade (KH), dureza (GH) e concentração de resíduos metabólicos, principalmente amônia e nitrito, bem como outras substâncias nocivas, como poluentes em geral, íons diversos, etc..

Neste artigo iremos descrever os efeitos de um destes fatores, os compostos nitrogenados, em seu aquário, e como controlar suas concentrações e evitar os efeitos desastrosos dessas altas concentrações, através da compreensão do chamado Ciclo do Nitrogênio.

O que é o Ciclo do Nitrogênio?

"Na natureza nada se perde, nada se cria, tudo se transforma". Podemos nos basear nesta máxima de Lavoisier para descrever o ciclo do nitrogênio no meio aquático.

Nossos aquários são mini-reproduções de ecossistemas onde vivem os peixes. Nesse ecossistema, os peixes se alimentam como qualquer ser vivo e produzem resíduos orgânicos, e das proteínas presentes nestes alimentos consumidos parte é assimilada e convertida em proteína animal e parte é eliminada. O nitrogênio contido nestes resíduos pode ser excretado como nitrogênio orgânico na forma de fezes ou como amônia, que é a principal forma de excreção de nitrogênio dos peixes. O nitrogênio também pode aumentar em aquários em virtude da adição de fertilizantes contendo nitrogênio, como também em razão da decomposição do alimento não consumido (Baldisseroto, 2002), bem como a presença de eventuais plantas e animais mortos. Em sistemas fechados com recirculação de água esses resíduos nitrogenados, especialmente amônia e nitrito, podem atingir níveis bastante elevados que atuam como um fator limitante para o crescimento ou sobrevivência do peixe (Person-Le Ruyet et al., 1995; 1998)..

A amônia e o nitrito são tóxicos para os peixes, mesmo em baixas concentrações, enquanto o nitrato só se torna tóxico em altas concentrações (Baldisseroto, 2002), como no caso de sistemas de recirculação de água (sistemas fechados) nos quais altos níveis de nitrato podem ser alcançados como resultado da nitrificação da amônia (Arana, 1997). Em sistemas com grande fluxo de água, a retirada desses compostos é efetuada rapidamente, impedindo que os níveis aumentem, de uma forma mais ou menos similar como ocorre na natureza. Já no caso de sistemas fechados como os aquários é importante a existência de filtros biológicos, com bactérias nitrificantes (Baldisseroto, 2002).

Para manter o equilíbrio destes compostos na natureza, o meio ambiente conta com a ação de organismos especializados que fazem a transformação desses compostos tóxicos em outros compostos menos tóxicos, que por sua vez são aproveitados por outros organismos, transformados em novos compostos, e assim o ciclo continua.

O ciclo do Nitrogênio (ou Azoto em Portugal), também conhecido como nitrificação consiste na transformação da Amônia (NH3) e Amoníaco (NH4)* (leia abaixo para esclarecimento de nomenclaturas entre Brasil e Portugal), em outros compostos menos tóxicos, a saber, Nitrito (NO2) e Nitrato (NO3).

* Em Portugal, o NH3 é chamado de amoníaco e o NH4 é chamado de amónio. O Nitrogênio é chamado de Azoto.

Uma vez no ambiente aquático a amônia é oxidada, por bactérias do gênero Nitrosomonas, em nitrito (NO2-):

NH4+ + 1 ½ O2 → NO2- + 2H + H2O

O nitrito, produto desta reação, irá sofrer então uma oxidação por ação de bactérias do gênero Nitrobacter, sendo transformado em nitrato (NO3-), como a seguir:

NO2- + ½ O2 → NO3-

Ambos os processos acima ocorrem em condições aeróbicas e são conhecidos como nitrificação. Já a redução do nitrito para amônia é conhecida como desnitrificação e se realiza em condições anaeróbicas, próprias de ambientes eutrofizados, em que ocorre a decomposição da matéria orgânica (Arana, 1997).

A Amônia

Por convenção, a amônia dissolvida não ionizada é representada simplesmente como NH3, enquanto a forma ionizada, ou íon amônio, é representada como NH4+. O termo amônia total refere-se à soma de ambas as formas e pode ser representado como NH3 + NH4+. Em soluções aquosas essas duas formas de amônia estão presentes, sendo representadas pela seguinte equação de equilíbrio (Emerson et al., 1975):

NH3 + nH2O → NH4+ + OH- + (n-1) H2O

As proporções relativas de NH3 e NH4+ presentes em uma solução dependem principalmente da temperatura e do pH e, em menor extensão, da salinidade. A concentração relativa de NH3 aumenta com o aumento da temperatura e do pH e diminui com o aumento da salinidade (Bower e Bidwell, 1978). Em criações comerciais a alimentação é a maior fonte de amônia e sua toxicidade é maior do meio para o final da tarde, quando o pH e a temperatura atingem seus valores máximos, e a concentração de gás carbônico seus valores mínimos. Nestas condições, a amônia não ionizada atinge seus níveis mais críticos no tanque (Boyd, 1990).

Os efeitos tóxicos da amônia presente na água para os peixes estão relacionados principalmente à forma não ionizada (NH3), devido à facilidade com que esta molécula se difunde para dentro do peixe (Hillaby e Randall, 1979). A grande maioria das membranas biológicas é permeável a essa forma de amônia, mas relativamente impermeável ao íon amônio (NH4+). A amônia não ionizada é de natureza lipofílica e por isso difunde-se rapidamente através das membranas biológicas, enquanto a amônia ionizada ocorre como moléculas maiores, hidratadas e carregadas, que não podem atravessar prontamente as membranas (Randall e Tsui, 2002). Aumento na concentração externa de amônia não ionizada resulta em aumento na taxa de difusão, causando um acréscimo na quantidade interna da molécula, que leva a um restabelecimento do equilíbrio NH3 – NH4+ dentro do peixe. Com a conversão da “nova” amônia não ionizada (NH3) para a forma ionizada (NH4+), mais NH3 externa se difunde para o interior do animal (Tomasso, 1980). Assim, qualquer pequeno aumento na concentração externa de NH3 pode causar um grande aumento na concentração interna de amônia total, excedendo as concentrações toleradas pelo organismo (Das et al., 2004).

A amônia constitui o principal produto para a excreção de nitrogênio em peixes teleósteos e é produzida a partir do catabolismo de proteínas da dieta (catabolismo é a parte do metabolismo que se refere à assimilação ou processamento da matéria orgânica adquirida pelos seres vivos para fins de obtenção de energia), principalmente no fígado. Após sua produção ela deve ser prontamente eliminada do corpo porque pode se tornar tóxica se for acumulada no organismo. Ela é eliminada através das brânquias, sendo que o rim colabora com menos de 2% da excreção de amônia total pelos teleósteos (Hillaby e Randall, 1979; Randall e Wright, 1987). Evidências experimentais indicam a existência de pelo menos três mecanismos em potencial para a extrusão de amônia através das brânquias dos peixes: difusão passiva de NH3 a favor de um gradiente químico, difusão passiva de NH4+ a favor de um gradiente eletroquímico, e um trocador eletroneutro Na+/ NH4+, localizado na membrana apical.

Toxicidade da amônia para os peixes

A toxicidade é uma propriedade relativa de uma substância, que se refere ao seu potencial em afetar nocivamente um organismo vivo, e depende da concentração do agente químico e da duração da exposição. Para se determinar a toxicidade relativa de uma substância a um organismo aquático é feito um teste de toxicidade aguda para se estimar a concentração letal média (CL50) da substância na água onde os organismos estão expostos. A CL50 é a concentração estimada que produz mortalidade em 50% da população-teste, em um período de tempo específico, geralmente de 24 a 96 horas (Martinez e Cólus, 2002).

A toxicidade da amônia para salmonídeos e outras espécies dulcícolas sob diferentes condições já foi extensamente revisada e pode variar em função da sensibilidade da espécie, estágio de desenvolvimento, duração da exposição e condições ambientais. A CL50 (96h) de NH3 média para os teleósteos dulcícolas em geral é de 0,82 mg L-1 de NH3 (Person-Le Ruyet et al., 1995).

Testes de exposição aguda (24 h) à amônia, realizados com indivíduos jovens de pacu (Piaractus mesopotamicus) e curimba (Prochilodus lineatus) e adultos de lambari-do-rabo-amarelo (Astyanax altiparanae) em criadouros, registraram valores de CL50 (24h) de NH3 variando de 0,66 a 0,85 mg L-1, ou seja, próximos de 0,82 mg L-1, que é o valor médio de CL50 (96h) de NH3 sugerido para os teleósteos dulcícolas em geral (Person-Le Ruyet et al., 1995).

A truta arco-íris (Oncorhynchus mykiss) é considerada uma das espécies mais sensíveis à amônia, com valores de CL50 variando de 0,068 a 0,62 mg L-1 de NH3, de acordo com o estágio de desenvolvimento (Arthur et al., 1987). Em estudo realizado por Karasu Benli e Köksal (2005), a CL50(48h) de NH3 determinada para larvas e juvenis de tilápia do Nilo foi, respectivamente de 1,01 e 7,4 mg L-1. A tilápia revelou-se uma das espécies mais tolerantes à amônia, até mesmo mais tolerante que o bagre de canal, Ictalurus punctatus, que apresenta valores de CL50 para NH3 variando entre 0,98 e 4,2 mg L-1 (EPA, 1999) e era, até então, considerada a espécie mais tolerante à amônia. Com base nos valores de CL50 registrados para as três espécies neotropicais estudadas, infere-se que estas são muito mais sensíveis à amônia do que a tilápia do Nilo e o bagre de canal. As concentrações letais estimadas para jovens curimba e pacu correspondem, respectivamente, a 10 e 11,5 % da CL50(48h) estimada por Karasu Benli e Köksal (2005) para jovens de tilápia de Nilo (7,4 mg L-1). Fica claro, portanto, que concentrações de amônia aparentemente seguras para determinadas espécies exóticas, como o caso da tilápia do Nilo, podem ser letais para espécies neotropicais e estas diferenças devem ser consideradas no estabelecimento de critérios para a qualidade da água e bem estar animal. É sempre comentado que existem espécies mais "resistentes" que outras no hobby (os próprios ciclídeos são ditos como "resistentes"), mas isto não é uma desculpa para que não se monitorem as concentrações de compostos nitrogenados em nossos aquários mesmo que sejam aquários exclusivos dessas espécies mais "resistentes".

O lambari foi a espécie que se mostrou mais sensível à amônia, apresentando o menor valor de CL50 (0,66 mg L-1), enquanto o pacu foi a mais resistente, apresentando o maior valor de CL50 para a NH3 (0,85 mg L-1). Deve-se ressaltar, contudo, que as espécies testadas diferiam quanto à idade e tamanho, visto que os indivíduos lambari eram adultos, e os de pacu e curimba eram jovens. Por outro lado, os pacus jovens eram maiores que os curimbas e os lambaris. Segundo Walker (1996), existem evidências que os peixes maiores são menos suscetíveis que espécimes menores. Os efeitos do tamanho podem ser resultantes dos seguintes fatores: i) indivíduos menores de uma dada espécie apresentam maior área de superfície corporal para absorção, em relação à massa corpórea; ii) indivíduos pequenos apresentam taxas respiratórias maiores.

Efeitos da amônia nos peixes

A sensibilidade de muitas espécies de teleósteos dulcícolas a altas concentrações de amônia pode culminar na morte dos animais (Moraes et al., 2004). Os sintomas de intoxicação aguda pela amônia incluem hiperventilação, hiperexcitabilidade, convulsões, perda de equilíbrio, coma e morte (Twitchen e Eddy, 1994). Esta toxicidade aguda decorre principalmente de seu efeito no sistema nervoso central, mas o mecanismo de ação da amônia ainda é controverso tanto para mamíferos como para teleósteos (Person-Le Ruyet et al., 1998). Segundo Randall e Tsui (2002), a causa primária da toxidade da amônia para peixes pode decorrer do efeito despolarizante do íon NH4+ nos neurônios, que atua em substituição ao K+, levando a uma ativação excessiva de receptores glutamatérgicos do tipo NMDA (N-Metil-D-Aspartato) e a subseqüente morte da célula. Em salmonídeos expostos a concentrações elevadas de amônia, observam-se inicialmente alterações no sangue (aumento das concentrações plasmáticas de amônia total, glutamina e lactato) e no cérebro (decréscimo dos níveis de glutamato, açúcares e ATP). Subsequentemente todas as funções biológicas, como osmorregulação, respiração e excreção, são rapidamente alteradas (Person-Le Ruyet et al., 1998). A amônia, como um agente estressor, também pode deflagrar uma série característica de respostas endócrinas denominadas conjuntamente como resposta de estresse, análoga à "síndrome de adaptação geral" observada em mamíferos (Martinez e Cólus, 2002; Urbinatti e Carneiro, 2004). Pode-se considerar essa resposta ao estresse como um conjunto de alterações primárias, secundárias e terciárias que envolvem níveis sucessivamente superiores da organização biológica, iniciando com a ativação dos sistemas nervoso e endócrino e terminando com alterações apresentadas pelo organismo como um todo (Jobling, 1994).

Estresse em peixes, assim como em outros animais, resulta tipicamente em dois tipos de resposta endócrina, que resultam em aumento do cortisol plasmático e aumento de catecolaminas plasmáticas (Brown, 1993). As catecolaminas (adrenalina e nor-adrenalina) e o cortisol disparam uma grande variedade de alterações bioquímicas e fisiológicas, denominadas coletivamente de respostas secundárias ao estresse. Os efeitos metabólicos podem incluir hiperglicemia, depleção das reservas teciduais de glicogênio, lipólise e inibição da síntese protéica. Essa resposta endócrina generalizada, que resulta em rápida mobilização de reservas energéticas, pode ser considerada um mecanismo adaptativo que permite ao organismo um aumento na demanda energética durante a exposição a fatores estressantes (Thomas, 1990; Wendelaar Bonga, 1997).

A exposição de peixes a concentrações letais ou subletais de amônia também pode causar alterações histológicas em alguns órgãos e tecidos, como danos branquiais (Alabaster e Lloyd, 1982; Arana, 1997). Carpas comuns expostas à amônia durante 24 horas apresentaram elevação epitelial e hemorragia nas brânquias, danos branquiais que podem levar à hipóxia (baixo teor de oxigênio nos tecidos) e distúrbios osmóticos (Peyghan e Azary Takami, 2002). Tilápias jovens expostas a concentrações elevadas de amônia durante 24 horas apresentaram hiperplasia do epitélio branquial e fusão das lamelas (Karasu Beli e Koksal, 2005).

As brânquias são órgãos multifuncionais que atuam como uma interface entre o animal e o ambiente, constituindo o local de tomada e de depuração de contaminantes e freqüentemente são os primeiros órgãos afetados por poluentes (Heath, 1995). Como desempenham papel fundamental para as trocas gasosas e para a regulação osmo-iônica, alterações histológicas branquiais podem afetar diretamente os mecanismos de respiração e osmorregulação.

Onde esse ciclo ocorre no meu aquário?

O aquário consiste num pequeno ecossistema aquático que trazemos para dentro de nossas casas, e como tal, sofre, invariavelmente, alguns dos mesmos processos físico-químico-biológicos que ocorrem na natureza.

No caso do Ciclo do Nitrogênio, convém salientar que na natureza as concentrações de tais compostos de nitrogênio são ínfimas, visto que a quantidade de organismos vivos e detritos em relação ao volume de água é extremamente pequena, na maioria dos casos (excluindo-se por exemplo locais com águas extremamente poluídas). O mesmo não ocorre no aquário, que por maior que seja, ainda possui proporções diminutas em relação ao habitat natural, e cujos habitantes estão em proporção muito maior do que na natureza, e onde as concentrações desses compostos serão proporcionalmente mais altas, e consequentemente seu efeito nocivo será maior e ocorrerá de forma mais rápida. É por isto que se fala sempre aos iniciantes no aquarismo que tentem começar no hobby com o "maior aquário que puderem", pois aquários pequenos tendem a ser bem mais instáveis e as concentrações de alguns compostos mesmo que pequenas terão um efeito muito mais forte num ambiente mais reduzido.

Mas como eliminar esses compostos do aquário, se não podemos contar com os meios, digamos, "naturais" como por exemplo chuva e correnteza?

Existem 3 itens fundamentais que garantem o funcionamento e manutenção do ciclo do nitrogênio no seu aquário:

1 - Filtros:

Provavelmente você já deve ter ouvido falar sobre a filtragem. Hoje sabemos existir 3 tipos de filtragens, todas com finalidades específicas e importantíssimas:

  • a filtragem mecânica, que retira fisicamente os detritos sólidos da água do aquário, através de elementos filtrantes como lã de vidro ou perlon. Pense nela como um grande "coador", filtrando as impurezas maiores;
  • a Filtragem Química, geralmente realizada com carvão ativado ou resinas especiais, que removem substâncias a nível molecular, através de adsorção;
  • a Filtragem Biológica, que é a mais importante relacionada ao ciclo do Nitrogênio. Embora seja importante, nada mais é do que uma superfície onde as colônias de bactérias que realizarão as diversas etapas do ciclo se fixarão. Normalmente é feita utilizando-se de materiais bastante porosos como cerâmicas desenvolvidas para tal fim, para que tenham maior superfície e a quantidade de bactérias ali fixadas possa ser grande.

2 - Trocas Parciais (TPAs):

Na natureza há a constante renovação da água, eliminando assim grande parte dos produtos orgânicos tóxicos naturalmente. O aquário, por ser um ambiente fechado, não nos propicia essa auto-renovação. Cabe ao aquarista executar essa renovação periódica através da troca de uma quantidade parcial da água do aquário regularmente.

É uma maneira rápida e eficaz de eliminar parte dos compostos de nitrogênio do aquário, e é altamente indicada na redução emergencial da amônia e seus derivados e outras impurezas, embora não seja a solução definitiva nem ideal para casos constantes de excesso de compostos nitrogenados. Cada tipo de aquário pode requerer mais ou menos trocas parciais conforme o caso, e a não observância destas pode trazer além do problema de acúmulo de substâncias indesejadas, o esgotamento de certos nutrientes essenciais. Repondo a água você não só remove as impurezas, mas repõe uma infinidade de outros compostos necessários ao aquário. Veja aqui um texto bem interessante sobre a variação das concentrações de nitratos a longo prazo usando-se uma determinada rotina de trocas parciais.

3 - Plantas e Algas:

O nitrato produzido pelas bactérias a partir do nitrito serve de nutrição a organismos superiores, no caso as plantas e as algas. Isso não significa, entretanto, que um aquário com plantas ou algas estará livre do nitrato. Esses organismos irão consumir a quantidade que lhes for necessária e que é na maioria das vezes menor que a capacidade de produção desses compostos no aquário, portanto o nitrato irá literalmente "sobrar" em seu aquário. Num aquário de ciclídeos africanos, onde na maioria das vezes não há plantas em grande número, esta falta deve ser suprida com a monitoração constante dos outros fatores.

Como detectar se meu aquário apresenta níveis de amônia inadequados?

Existem no mercado diversos testes para medir a amônia elaborados por fabricantes nacionais e importados, de qualidade variável. Vale a pena testar diferentes marcas até encontrar uma que atenda suas expectativas na relação custo X benefício.

Existem dois tipos de testes de amônia: os de salicilato e os testes tipo "Nessler". Os testes Nessler utilizam apenas um reagente, e sua escala de medição mostra variações de tons em amarelo, enquanto o teste de salicilatos usam 3 reagentes diferentes e a escala varia de tons amarelos a verdes. O teste usando o método Nessler foi elaborado para medir os níveis de amônia total (NH3 + NH4+) e pode frequentemente apresentar resultados do tipo "falso-positivo" quando se usa determinados tipos de condicionadores como por exemplo o Prime da Seachem.

Como dito anteriormente, a toxicidade da amônia varia de acordo com alguns fatores, como o pH. A seguir apresentamos uma tabela que exemplifica isso:

TABELA PARA CONCENTRAÇÃO DE NH3- (Amônia Não Ionizada – ANI)


TEMPERATURA
pH 6 8 10 12 14 16 18 20 22 24 26 28 30 32
7.0 .0013 .0016 .0018 .0022 .0025 .0029 .0034 .0039 .0046 .0052 .0060 .0069 .0080 .0093
7.2 .0021 .0025 .0029 .0034 .0040 .0046 .0054 .0062 .0072 .0083 .0096 .0110 .0126 .0150
7.4 .0034 .0040 .0046 .0054 .0063 .0073 .0085 .0098 .0114 .0131 .0150 .0173 .0198 .0236
7.6 .0053 .0063 .0073 .0086 .0100 .0116 .0134 .0155 .0179 .0206 .0236 .0271 .0310 .0369
7.8 .0084 .0099 .0116 .0135 .0157 .0182 .0211 .0244 .0281 .0322 .0370 .0423 .0482 .0572
8.0 .0133 .0156 .0182 .0212 .0247 .0286 .0330 .0381 .0438 .0502 .0574 .0654 .0743 .0877
8.2 .0210 .0245 .0286 .0332 .0385 .0445 .0514 .0590 .0676 .0772 .0880 .0998 .1129 .1322
8.4 .0328 .0383 .0445 .0517 .0597 .0688 .0790 .0904 .1031 .1171 .1326 .1495 .1678 .1948
8.6 .0510 .0593 .0688 .0795 .0914 .1048 .1197 .1361 .1541 .1737 .1950 .2178 .2422 .2768
8.8 .0785 .0909 .1048 .1204 .1376 .1566 .1773 .1998 .2241 .2500 .2774 .3062 .3362 .3776
9.0 .1190 .1368 .1565 .1782 .2018 .2273 .2546 .2836 .3140 .3456 .3783 .4116 .4453 .4902
9.2 .1763 .2008 .2273 .2558 .2861 .3180 .3512 .3855 .4204 .4557 .4909 .5258 .5599 .6038
9.4 .2533 .2847 .3180 .3526 .3884 .4249 .4618 .4985 .5348 .5702 .6045 .6373 .6685 .7072
9.6 .3496 .3868 .4249 .4633 .5016 .5394 .5762 .6117 .6456 .6777 .7078 .7358 .7617 .7929
9.8 .4600 .5000 .5394 .5778 .6147 .6499 .6831 .7140 .7428 .7692 .7933 .8153 .8351 .8585
10.0 .5745 .6131 .6498 .6844 .7166 .7463 .7735 .7983 .8207 .8408 .8588 .8749 .8892 .9058
10.2 .6815 .7152 .7463 .7746 .8003 .8234 .8441 .8625 .8788 .8933 .9060 .9137 .9271 .9389

Como usar a tabela acima?

Para calcular a quantidade de amônia não-ionizada presente numa determinada amostra, o Nitrogênio Amoniacal Total (NAT) deve ser multplicado pelo fator selecionado de acordo à tabela, utilizando-se para isso o pH e a temperatura da água encontrados por teste específico (pH) e leitura (temperatura; termômetro). Para ter maior precisão, deve-se medir previamente esses valores, para depois fazer o teste de amônia. Ou seja, para ser acurado, o teste de amônia deve ter valores de temperatura e pH iguais tanto em sua amostra de água como na água do aquário de onde foram retiradas as amostras.

Toxidez e concentrações de ANI:

Até 0.005 ppm Estresse contínuo, problemas a médio / longo prazo.
Entre .005 e 1.0 ppm Indeterminado; poucas mortes “inexplicadas” a mortandades massivas, ou estresse contínuo, com surgimento de doenças oportunistas diversas.
1.0 a 2.0 ppm Morte de todos os peixes, independentemente de espécie, tamanho, idade etc, entre 24 a 96 horas (1 a 4 dias).

Para exemplifcar, apresentamos um modelo teórico de como realizar a determinação da fração tóxica de amônia tóxica (ANI):

1) A temperatura da água verificada está em 24°C;

2) O teste de pH da água deu 8.0;

3) Cruzando-se na tabela os valores obtidos de temperatura e pH encontrados, encontra-se o fator de multiplicação a ser utilizado: 0.0502;

4) Faz-se então o teste de amônia, onde se encontra uma concentração de NAT de 1.0 ppm;

5) Multiplica-se, então, esse valor do NAT pelo fator encontrado na tabela: 1,0 X 0.0502 = 0.0502 ANI.

Interpretação do Resultado:

A amônia tóxica presente (ANI) é de 0.0502 ppm. Ou seja, está praticamente no limite da toxidade, já causando algum estresse aos peixes.

O que faz a concentração de amônia aumentar no aquário?

As causas mais comuns do aumento dos níveis de amônia no aquário são as seguintes:

Filtragem, insuficiente ou deficiente: Como já foi descrito anteriormente, uma filtragem eficiente é imprescindível para o ciclo do nitrogênio no aquário. Além da qualidade e quantidade adequada dos elementos filtrantes, deve-se atentar para a vazão do filtro. Recomenda-se, genericamente, um filtro com vazão (L/H, litros por hora) cinco vezes maior que o volume de seu aquário. No caso de ciclídeos africanos, costuma-se recomendar uma vazão de até 10 vezes maior, pois a amônia é mais tóxica em pH mais alto. O que significa isto? Uma vazão mais alta do filtro significa que a sua água será filtrada mais vezes num mesmo espaço de tempo.

Superpopulação: Uma capacidade de peixes além do limite da capacidade da colônia de bactérias nitrificantes do aquário gera detritos igualmente excessivos, poluindo a água do tanque rapidamente e sobrecarregando a filtragem. A colônia de bactérias criada durante o processo de ciclagem tem uma determinada capacidade de consumir a amônia existente, e se a população de seu aquário está além dessa capacidade, a amônia não será totalmente processada. Eventualmente esta colônia pode aumentar após um período de tempo e conseguir se adaptar a esta quantidade excessiva de amônia, mas nem sempre é o caso.

Trocas Parciais Insuficientes: As trocas de água exercem papel fundamental na eliminação de parte dos compostos nitrogenados da água do aquário. Deve-se seguir a relação de trocas que seja adequada ao seu aquário e espécies que nele habitam, bem como necessidades específicas de TPA's de sua população.

Aquário ainda passando pelo processo de Ciclagem: O aquário recém-montado não possui todas as características de equilíbrio biológico. Num aquário novo, as colônias de bactérias ainda não se formaram, dificultando a decomposição dos nitrogenados. Por esse motivo é essencial que se faça sempre a chamada "ciclagem" do aquário, que é o processo de criação das colônias de bactérias que irão consumir os compostos nitrogenados, processo esse feito preferencialmente sem os habitantes no aquário.

A ciclagem e sua importância

Como foi dito, efetuar a ciclagem é um dos primeiros passos a se tomar na montagem de um aquário. Sem isso, a possibilidade de mortes é enorme. Mas não basta apenas fazer a ciclagem, é necessário observar ainda alguns detalhes em relação ao processo.

Mas o que é efetivamente a ciclagem? Resumidamente, ciclagem é o nome que se dá ao processo de criação de um ambiente propício para que o ciclo do Nitrogênio possa ocorrer corretamente.

A ciclagem começa quando os primeiros compostos nitrogenados aparecem (uma fonte de amônia qualquer pode ser usada como "gatilho", como ração ou amônia líquida ou até mesmo há quem use pedaços de carne). As bactérias que consomem a amônia começam a se reproduzir e consumir a amônia existente, e você vai notar pelo teste de amônia que o valor deste composto tende a cair após alguns dias (ou até semanas). Só que ao consumir a amônia é produzido o nitrito, e aí é necessário que a colônia de bactérias que decompõe o nitrito em nitrato também seja criada, o que leva mais alguns dias (ou semanas...). Assim que a primeira amônia é consumida, o teste de nitrito deve começar a indicar o aumento desse composto no seu aquário. Assim que as bactérias consomem esse nitrito, e o nível dele é zerado (não absolutamente falando, não existe amônia zero nem nitritos zero nem mesmo num aquário estável, ambos estão sempre sendo produzidos - apenas estão sendo consumidos imediatamente, "zerando" os testes), é sinal de que a ciclagem se completou, pois as colônias que consomem ambos os tipos de detritos prejudiciais já se formaram e estão trabalhando.

Só que não para por aí, é preciso manter o que foi criado. Você pode por exemplo por qualquer motivo não popular seu aquário imediatamente após os valores de amônia e nitrito zerarem. Mas se você não continuar a fornecer amônia para a sua colônia, seja na forma de novos peixes introduzidos no aquário ou uma outra fonte de amônia qualquer como no começo da ciclagem, essa colônia literalmente morrerá "de fome", e a ciclagem irá se perder. Ou então, caso você superpopule o aquário inicialmente, a colônia criada quando da ciclagem não terá a capacidade de consumir todos os compostos produzidos por essa população exagerada, causando novos picos de amônia e praticamente uma "nova" ciclagem ocorrerá, nesse caso para adequar o tamanho das colônias de bactérias aos dejetos produzidos por essa população extra. É por esse motivo que se recomenda sempre povoar o aquário aos poucos, para dar tempo às bactérias de se adaptarem à nova população sem causar um impacto muito grande.

Existem produtos no mercado chamados "aceleradores do ciclo biológico", que prometem reduzir o tempo de criação das colônias de bactérias. A eficácia desses produtos é confirmada por alguns e contestada por outros, portanto fica a seu critério usar ou não tal tipo de produto.

A falta da ciclagem é um erro particularmente comum em iniciantes, que poderia ser facilmente evitado, e que causa inúmeras perdas entre hobbyistas mais afoitos. A paciência neste caso é fundamental.

É preciso não confundir também um aquário "ciclado" com um aquário "maturado" ou um aquário "estabilizado". A ciclagem é apenas o processo inicial de criação da colônia de bactérias. Um aquário que está ciclado nem de longe ainda está estabilizado ou maduro. Um aquário estabilizado é aquele onde há poucas variações em seus parâmetros, e isso leva tempo, a mesma coisa vale para com o termo "maduro". Um aquário "maduro" é aquele que já está bem estabelecido, já tem um certo "tempo de vida" e nele não ocorrem mais as variações de um aquário recém montado com tanta freqüência.

Um ponto muito discutido e repassado é sobre a duração do processo de ciclagem. Muito se diz por aí que a ciclagem deve durar "pelo menos" um mês. Não é bem assim. A ciclagem não se mede em dias, horas, meses ou anos. A ciclagem em si, que é a criação das primeiras colônias de bactérias nitrificantes, não leva muito tempo para acontecer. Esse processo todo é monitorado através de testes de amônia e nitrito. A manutenção desse processo de forma adequada (principalmente até que se comece a popular o aquário) é que pode levar semanas ou meses, não o processo em si.

Considerações Finais

Este artigo é apenas uma elucidação teórica sobre o Ciclo do Nitrogênio e alguns assuntos relacionados a ele. Em nosso fórum você encontrará relatos de diversas experiências de nossos membros a respeito, com relatos de várias situações descritas aqui. Além da teoria explicada no texto, nada melhor que ver relatos de casos reais do dia-a-dia, para se ter conhecimento do que realmente pode acontecer com seus peixes caso sejam ignorados alguns desses pequenos mas importantes detalhes.

Entender o que se passa no seu aquário lhe ajuda a identificar muito mais rapidamente as causas de um possível problema, e faz com que a solução efetiva dos eventuais problemas seja feita de forma rápida e eficiente, e não há necessidade de ficar experimentando soluções "milagrosas". Não é preciso ficar quebrando a cabeça para encontrar o que há de errado, basta apenas ter uma noção de como a coisa funciona em sua parte teórica, que embora para alguns possa parecer chata e cansativa, também faz parte do aprendizado, e isso lhe trará bons resultados como aquarista no futuro assim que você dominar estes conceitos tão importantes.

© Ciclídeos Online, 2009

Referências

MARTINEZ, Cláudia Bueno dos Reis et al. Toxicidade e Efeitos da Amônia em Peixes Neotropicais - Departamento de Ciências Fisiológicas da Universidade Estadual de Londrina

SIMÕES, Vladimir Xavier. In Tabela para determinar a fração/concentração de amônia tóxica presente na água. Site Aquabrasilis: http://aquabrasilis.sites.uol.com.br/text/teoria/amonia.html